Vinho derramado

Já era bem tarde. Talvez cedo demais.

Da varanda escura viam-se os prédios vizinhos com uma ou duas luzes acesas.

Pensamentos longe. Fazia frio. E não era só o frio do clima de outono em mais uma noite em claro, era o frio de dentro. Na cabeça todos os sons e ruídos, inclusive o som ausente. Esse era ensurdecedor. Excesso da falta.

Entrou um pouco. Todo aquele som em volume máximo na cabeça a estava perturbando de forma que não conseguia ordenar os pensamentos. Ligou a tv num gesto automático de quem vive só e precisa preencher os vazios. Vazios de fora e de dentro. Não era a tv o que queria escutar. Desligou.

Foi à cozinha, pegou uma taça, o vinho chileno escolhido a dedo para uma ocasião especial, mas que sobrou na prateleira, pois a ocasião nunca chegou, abriu a gaveta e procurou o saca-rolhas. Maldito aparelho. Como some da gaveta assim? Sentiu um metal frio nos dedos da mão que apoiava na pia e notou que ele estava ali ao seu alcance todo o tempo. Maldito! Abriu a garrafa num gesto automático de quem vinha fazendo o mesmo movimento havia noites (ou dias) e se deu conta de que aquilo havia virado rotina. Olhou as horas, mas não as viu. O som estrondoso da cabeça não a deixava assimilar nenhuma informação que não fosse mecânica. Era irracional.

Voltou a si, serviu-se do vinho em quantidade considerada “excessiva para a saúde cardíaca” e bebeu o que seriam três goles de uma só vez. O vinho desceu pela garganta em notas amargas. Como podia vinho de tal qualidade cair tão mal num paladar? Mais pensamentos a inundaram incorporados ao cruel (dissa)sabor do vinho e deu-se conta de que a cozinha estava cansada de sua presença. Pensou: Te entendo, cozinha. Compartilho da sensação.

Ligou o som, mas não fazia ideia do que queria ouvir. Sabia que a única coisa que não queria mais sentir era o som de sua desordem mental. Deu play na primeira sugestão de playlist que apareceu no aplicativo e começou a tocar a versão de Solitude da Sarah Vaughan (veja só!). Que lindo! E que triste! O barulho da mente se afastava à medida em que a música a invadia. Bebeu mais vinho. O tom de amargo estava se atenuando, mas o vinho descia quase sólido.

Sentou-se no sofá, de frente para a varanda. O frio atravessava a porta, subia por seu corpo e arrepiava seus pelos. O som penetrava seus ouvidos quase que sexualmente, subia à cabeça e cravava uma estaca por ali demarcando território.

Mil pensamentos outra vez a fizeram fechar os olhos por um instante. Não sabia dizer quanto durou esse instante.

Um pesadelo – mais um para a coleção. Acordou no instante em que seu corpo cairia da varanda do 18º andar. Localizou-se na realidade. O vinho derramado no sofá e em suas roupas. Parecia uma hemorragia de si mesma. Ela derramada em agonia, tormentos e morte.

vinho derramado

Como é difícil lidar com monstros invisíveis

Quando eu era criança, entre os 5 e 8 anos de idade, tinha uma amiga imaginária, no mínimo, muito interessante.
Era uma mulher branca de uns 56 anos o que, para mim, já era ser muito velha, cabelos curtos entre o loiro escuro e o grisalho, nem gorda, nem magra, fumante – tossia muito por causa do cigarro – e se vestia como uma dita senhora: saia abaixo do joelho e larga, camisa florida (por vezes flores azuis e em outras ocasiões flores cor de rosa) e chapéu marrom. Nunca usava sapatos. Dizia-me que não gostava de ter os pés presos, como eu. Seu nome era Tia.
Nós não brincávamos juntas, afinal a tia não tinha mais idade para isso, mas conversávamos por horas e horas – bem, talvez fossem minutos, mas eu era criança, então minha noção de tempo era um tanto distorcida – e ela sempre me contava da vida, como ela vivia, histórias que aconteceram e que fizeram a diferença em sua existência. Era uma grande contadora de histórias, essa minha amiga. Aprendi muito com ela. Sempre tinha um bom conselho para me dar ou alguma coisa relevante para comentar. Dizia que eu não precisaria nunca de irmãos porque era uma criança independente. “O que é independente, tia”, perguntava. “É quando você não precisa de outra criança pra brincar”, ela respondia.
Aos 8 anos – me lembro do dia – minha mãe entrou no meu quarto de brincar e ouviu parte da conversa que eu estava tendo com a tia. Ela ficou um tempo parada escutando e depois me perguntou com quem estava falando. Expliquei toda a história da mulher, tudo o que a gente conversava e minha mãe me disse que a partir daquele dia a tia não poderia mais me visitar. E, de fato, nunca mais ela veio.
A tia foi muito importante na minha vida. Reconfortava-me na solidão das brincadeiras, me ajudava a dar aula para as bonecas, segurava minha mão quando eu sentia medo do escuro e dormia de mãos dadas comigo quando eu tinha de pegar na mão da minha mãe para ela dormir nas crises de pânico. Foi possível enfrentar meus monstros infantis graças à tia.
Hoje, com 30 anos, eu não consigo enfrentar certos monstros que cresceram em mim ao longo do tempo. Chega a ser ridículo! E esses monstros são feios! Atacam-me o sono, causam pesadelos, fazem subir a adrenalina de tal forma que me causa ansiedade, tornam meu dia infernal e repetem o ciclo a cada vinte e quatro horas.
Na infância os monstros eram menos complexos. Podiam até ser feios, entretanto podíamos “vê-los” e o medo passava depois de um tempo. Já os da vida adulta não. Eles são invisíveis e nos consomem. São perfeitos sacanas. Aparecem, sem se mostrar, quando querem, causam estragos, tomam conta de nós e no momento em que percebemos algo estranho já não somos nós. Somos eles. Quando menos esperamos eles gritam sussurrando com voz horripilante “sua vida é minha”!
Tenho de matar os meus fantasmas todos os dias sabendo que no dia seguinte eles renascerão. A minha esperança é de que eles renasçam mais fracos, mas o meu medo é de que a cada batalha cansativa, a cada briga, eu perca as forças para começar tudo outra vez no dia seguinte.

ansiedade

Sentir

Há beleza

Sim, é mui belo o sentir

É arte que aprendemos a domar logo cedo

Construímos a ideia de que a frieza, por vezes, leva vantagem

 

Há tristeza

Sim, é mui triste o sentir

É solitário, complexo, dolorido

Nem sempre aquilo que sentes é o que terá de volta

 

Há sentido

Sim, faz sentido sentir

Apesar de todos os percalços, da dor e da angústia

Sentir faz parte da realidade humana

Ninguém está imune

 

Há loucura

Sim, é mui louco sentir

Arde, mas é suave

Rasga, mas costura

Amarga, mas é doce

Traz dor, mas também traz amor ou aprendizado

Que loucura é sentir…

 

A trilha sonora fica por conta da Ana Muller, Me Cura (clica no hiperlink).

 

 

De volta às palavras. Nunca se deixe calar!

voltei1

E depois de tanto tempo (muito mesmo) resolvi dar voz às minhas palavras novamente.

Foram alguns anos de silêncio mental, talvez porque eu não quisesse me expor, talvez porque eu sabia que me calando as palavras doeriam menos. As palavras ganham vida ao serem ditas, expostas, e eu não queria dar vidas àquelas que foram tão vis comigo. E assim se fez!

Mas resolvi reacender as chamas da paixão pela escrita e me dedicar novamente ao que, na verdade, nunca foi abandonado, mas ficou oculto durante esse tempo de reclusão.

Não posso deixar de, antes de começar, dizer que esse reinício não teria sido possível se uma pessoa mais que especial não tivesse me inspirado e me trazido até o meu eixo de novo com muita inspiração natural:

Houve tempos escuros e de solidão.

Instantes em que a melhor alternativa seria cair num abismo.

Houve momentos em que imaginar a sensação de alegria ou qualquer pequeno tipo de contentamento me trazia imediatamente as sensações de frustração, tristeza, dor.

Houve um tempo em que prazer era o que me movia, mas não me saciava.

Havia dias em que eu preferia não existir, não ser.

A ansiedade tomava conta e os remédios não eram suficientes para emudecer a angústia, o peso no peito, a inquietação.

Se havia insegurança? Poxa, muita! E como não ter?

E com isso calada fiquei. Por dias. Por meses. Por anos.

Guardei todas as palavras, todas as sensações e todas as dores só para mim.

Fiz e refiz trajetos da minha mente para compreender o que eu havia feito de mim. O que eu havia deixado que fizessem de mim.

Me permiti sentir tudo de tal forma que me ceguei repetidamente para os sinais em forma de faróis de que aquilo que eu estava vivendo ultrapassava as fronteiras do que chamamos de amor. Quebrava-as. Aniquilava-as.

Esse tempo de trevas me fez pensar e pesar tudo aquilo que eu achava certo, tudo o que eu entendia como “melhor pra mim” e que eu não estava ponde em prática. Em verdade estava tentando esconder minhas verdades de mim.

E houve um dia em que a escuridão se foi. Não havia luz, mas não havia treva.

Sei bem que um é oposto ao outro e ao mesmo tempo seu complemento, mas não havia nada.

O nada foi menos pior do que aquilo que eu estava tentando fazer ser o meu tudo a qualquer custo.

Foi difícil existir no vazio. Estar nele era reconfortante, mas ao mesmo tempo era custoso me mexer sem direção alguma.

O tempo passava e eu me auto aconselhava dizendo que o tempo levaria tudo de ruim, mas o Senhor do Tempo não apareceu tão rapidamente assim. Nem para me tirar do vazio, muito menos para me dar ao menos um norte.

E o tempo passava.

Alguns bons meses depois eu fiz uma visita à minha consciência e descobri que EU era a Senhora do Meu Tempo. Eu e somente eu tinha poderes para fazer com que o vazio também fosse embora e eu pudesse enxergar o interruptor.

E assim se fez.

Na desesperança de me recompor eis que, como linda e inesperada surpresa, surgiu você (vida longa à Internet).

E me trouxe encantamento às suas palavras. Me fez viva. Me entregou uma lanterna. E me mostrou que do vazio há possibilidades maiores. Existe uma saída, sim. E o tempo que eu precisei, o Tempo me deu.

Eu sou senhora do meu tempo, mas a sabedoria só o Tempo te traz. E muitas vezes ele vem te entregar através de alguém-luz. Alguém-grandioso. Alguém-sábio.

Estou de volta!

Obrigada!

A trilha fica por conta do Bituca, Travessia. (clica no hiperlink).

Ao Príncipe sem cavalo branco – Das vezes em que não dá para falar.

Seguir.
Seguir.

Bilhete de uma louca apaixonada (sendo redundante):

Afinidades, amizade, querer estar perto, bem junto, boca na boca, olhos nos olhos, pele na pele, sentindo cheiros, sabores, texturas… Dá pra definir todas essas sensações em uma palavra só, mas eu prefiro curtir cada uma delas em separado já que nem sempre querer é poder.

Estar com você pra mim é isso: Diversas sensações formando um conjunto que é VOCÊ, tecendo uma teia que me prende mesmo que eu queira me soltar e que ao mesmo tempo me dá a liberdade que eu nem sei se queria ter. Você é meu paradoxo preferido.

Sentir você é não medir sensações. É não perceber limites e ultrapassá-los todos sem sequer notar.

Entretanto, ter você é não ter.

  

De tudo que eu não entendo

Era tarde, era chuva e eram muitas emoções juntas.

Quando você tem a oportunidade de mudar e não consegue, o que fazer?

Um pássaro ao ser libertado se sente livre, claro, entretanto deve se sentir perdido, sem rumo…

As emoções e sensações passam a tomar conta, dominam mente, corpo, olhos, boca, mãos… E de repente ele vira escravo dele mesmo, perde as rédeas das asas do desejo e do que chama de sensato, esquece quem é ele e apenas vive, voa. Deixa a vida o conduzir seja lá pra onde ela o esteja guiando com mãos quentes e carinhosas. Esquece sua espécie, de onde veio, não percebe o tempo, não percebe as horas, dor, frio ou fome… O mundo para e faz com que só exista aquele momento, faz com que tudo pareça perfeito, mesmo que seja por poucas horas e só ali naquele momento específico.

 É péssimo não sentir nada além das boas lembranças porque a culpa por estar inebriado e imerso nesse universo paralelo e inexistente aumenta dia após dia e todas as vezes que sua lembrança vier te trair você vai lembrar que deveria sentir qualquer outra coisa que não seja a vontade de reviver tudo tal qual como foi. Não é repetir, é reviver – É importante dizer isso em voz alta, assim você passa a crer em suas palavras e elas se tornam (suas) verdades absolutas.

Ahhh eu quero sair pro mundo de novo. Sentir o sol na cara, a chuva molhando os cabelos, quem sabe o vento pra secar a chuva… sem amarras, sendo quem eu realmente sou: desconexa e paradoxal.

Resumé – Das vezes em que definir é preciso

Não, ela não era poética, nem sensual, nem linda, nem inspiradora, nem se deixava enganar por ninguém.

Não amava, nem era amada, menos ainda odiada, também não passava despercebida porque nunca foi indiferente.

Não tinha facilidades, nem dificuldades, nem grandes talentos, não era vazia, nem cheia…

… Mas pensava além, sonhava, queria mais, ambicionava e, em algumas vezes, conseguia.

Não estava nem lá nem cá, não se passava por ninguém, entretanto não se deixava ser passada. Não ordenava, nem se deixava controlar.

Não estava em sintonia, nem fora dela, não chorava, nem sorria – apenas quando lhe convinha – não se sentia melhor, menos ainda pior, contudo, sentia.

Não despertava desejos nem repulsas, não queria tudo, mas não se contentava com nada. Buscava o além, mas qual além?

Não queria aparecer, desaparecia. Não queria mostrar-se, escondia-se. Não pedia, nem esperava, nem explodia, nem gritava, nem esbravejava, porém ouvia, implodia, abafava gritos e xingos.

Não era paciente, nem impetuosa, nem cautelosa, menos ainda complacente, tampouco resiliente, ainda assim podia compreender o suave-cheiro-amargo-do-mundo-quadrado-dentro-da-redoma-de-vidro-e-poeira. Não obstante, parecia saber como enxergar as dores transparentes do ser humano e captar as ondas escritas com suco de limão n’alma daquele cujo olhava nos olhos. Amiga? Não. Irmã? Não. Mãe? Não.

Ela nem era eu…